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Quinta-feira, Outubro 14, 2004
HUMANOS........ Vocês humanos são exageradamente sugestionáveis. Sim, mas o que fazer? São apenas humanos. Claro que muitos gritarão indignados ante minha sagaz observação. É veredicto, porque não dizer? Mas os mais sensatos ão de concordar comigo após alguns breves exemplos que guardo na manga. Lá vai o primeiro: - A avó de minha esposa sofre com sua pressão alta. Como o aparelho que ela tinha estava fazendo hora extra neste plano astral, resolvemos comprar outro para ela. Acontece que ela não quis ficar com o aparelho na casa dela, com medo que estragasse. O aparelho ficou aqui em casa e quando a Katia vai na casa da avó, leva o aparelho. O interessante é que, desde a aquisição deste aparelho, quase todos desta casa ( eu digo quase porque me incluo fora dessa) foram acometidos de um mal súbito. ¿ Problema de pressão¿. - Hoje não estou legal. Mede minha pressão? ¿ pede um. - Acordei meio estranha hoje. Mede minha pressão? - Tropecei na calçada e machuquei o dedão. Tira minha pressão rápido! Como se a pressão fosse a causa de todos os males e não uma conseqüência, um sintoma de algo. Passam o dia sem comer nada e reclamam da pressão. Pare, que o seu mal é fome! Esse é um caso particular com qual tenho convivido e sobrevivido, apesar dos problemas de pressão que vem me afligindo. Um caso mais genérico ( e não estou falando de remédio mais barato), é o que ouvimos, vemos e até debatemos, nada mais é aquilo que nos empurram goela abaixo. Ou vocês nunca ouviram falar em ¿jabá¿? Sim, isso mesmo. Não é porque você gosta que a rádio toca. É porque a rádio toca o que você gosta. Paranóia? Mania de perseguição? Pode ser. Mas eu particularmente, acho impossível alguém em sua plena sanidade mental, gostar de ver a ( ou seria ¿o¿) Lacraia requebrando ao som da Eguinha Pocotó. E ainda tem gente que compra o CD e sai ouvindo no carro, com o volume no máximo, mostrando pra todo mundo sua pobreza de espírito. Se alguém se sente ofendido com minha opinião, me mande e-mails e terei o maior prazer em responder. E a prova da banheira? Escatologia de primeiro mundo. Multidões com tochas e foices na porta dos estúdios do SBT, condenando o quadro. Enquanto isso, o ibope tá em cima. Só perdendo para o Faustão, que, diga-se de passagem, não é lá grande coisa. Pra não falar de novela que sempre começa dando tudo errado para os mocinhos e acaba em casamento pra todo mundo. Ainda bem que caminho a margem de toda essa confusão, essa falta de personalidade coletiva e essa lobotomia avassaladora que carcome a sociedade pensante. Agora, com licença que vou no MacDonalds comer um lanche(que bonito), tomar uma Coca-Cola para refrescar minha sede e comprar um CD do Mc Sérginho porque, não é porque não sou humano que não sou filho de Deus. Mas antes, meçam minha pressão, pois acho que não estou legal........ Evandro Por Evandro - 9:30 AM Comments: Quinta-feira, Outubro 07, 2004 A Menina na Soleira da Porta Vejo a menina na soleira da porta. E da soleira da porta, a menina vê o mundo. O mundo cinza que a chuva e o pó pintaram, Pintando também a soleira da porta de onde a menina vê o mundo. Da soleira da porta a menina vê a criança. Vê o mendigo. Vê o velho. Da soleira da porta a menina vê o sorriso. Vê a lágrima. Vê o suor. Mas da soleira da porta a menina não entende a alegria. A vergonha. O esforço. Pois a soleira da porta é apenas a soleira da porta. Por entre pingos da chuva, um brilho azul reluz da soleira da porta. A menina dos olhos da menina da soleira da porta deseja o mundo mais que tudo. Enquanto um homem rico acende mais um charuto. E a fumaça perde-se entre as nuvens molhadas. E entre os pingo de chuva que castigam e glorificam a soleira da porta. Uma motocicleta passa, quebrando o silêncio e invertendo o sentido da chuva. Desfazendo poças d¿água e banhando cidadãos desprotegidos por guarda-chuvas, apenas. A menina na soleira da porta vê tudo isso, e uma gota de chuva percorre seu rosto pálido. Talvez não seja chuva, seja lágrima. Talvez não seja lágrima, mas chuva. A menina na soleira da porta deseja o mundo, mas teme a chuva. A chuva não ousaria invadir a soleira da porta de onde a menina vê o mundo. A menina da soleira da porta não ousa invadir o mundo enquanto a chuva, dele cuidar. Eu não ouso interferir no espetáculo de fria beleza que vejo da soleira da minha porta. Da soleira da minha porta vejo a menina na soleira da porta de outrem. Por Evandro - 8:46 AM Comments: Quarta-feira, Setembro 29, 2004 O DRAGÃO Enfrentei o dragão. Venci sua ira Cravando-lhe, no peito, Minha espada, Para só então perceber Que o dragão era eu. Por Evandro - 7:42 PM Comments: Sexta-feira, Setembro 10, 2004 Hoje acordei com espírito olímpico. Talvez alimentado durante toda a noite pelo convite que recebi no dia anterior. Perguntado sobre meus planos para o feriadão de sete de setembro, respondi: ¿não sei o que fazer. Não tenho nada planejado!¿ Foi então que a Katia me disse: ¿Então vamos caminhar!¿ Não foi bem um convite ou uma sugestão. Foi praticamente uma imposição, já que aqui em casa vivemos no regime de dedocracia, como já comentei em outra ocasião. Ou seja, dedo em riste e voz firme: ¿Ou você faz o que eu quero, ou...¿ Como o poder dessas reticências vão além da minha curiosidade e do meu instinto de sobrevivência, nunca perguntei ¿ou o que?¿. Iríamos, então, caminhar. Levantamos sete e meia da madrugada e fomos tomar café. Fui até a padaria para comprar pão presunto e mussarela, comida light pra meu cardápio matinal de atleta. Devorei dois pães e uma caneca de café preto. Amarrei meu tênis de estimação, que me acompanha há uns bons sete anos e pronto. Estava preparado para a maratona. Fiz meu aquecimento, alongamento, acupuntura, tratamento anti-rugas, lipoaspiração e controle de radicais livres, respirei quatorze vezes, porque treze só dá sorte para o Zagalo, pedi a proteção dos anjos e santos, e dos pais de santos também, senti a direção do vento, a temperatura, a umidade relativa do ar, a posição de Saturno em relação a terceira casa de Plutão (percebam que eu disse PLU-tão), refiz a análise combinatória dos números que darão na mega-sena, entrei no meu carro e fui caminhar. Pois é. Fui caminhar de carro porque, a pista de caminhada é muito longe (uns oitocentos metro, aproximadamente) e eu não estou afim de suar e me cansar. Lá estávamos nós, então. Eu, a Katia e um monte de gente que não tinha nada melhor pra fazer num feriadão como esse, dando voltas naquela pista enorme e cheia da terra. Eu estava me sentindo o próprio Vanderlei Cordeiro de Lima. E a Katia era meu Cornelius Horan (o fanático que atrasou o Vanderlei nas olimpíadas). Se vocês pudessem ver como a Katia anda devagar, concordariam comigo. Por diversas vezes pensei que estivéssemos andando para traz. Mas não tem problema. Nada seria capaz de macular meu espírito olímpico. Demos duas voltas naquela pista enorme, nos perdemos na confusão entre circuito laranja, verde e amarelo que se entrelaçam e torramos sob o sol da manhã. Tudo pela saúde, afinal para manter este corpinho apolíneo algum sacrifício tem que ser feito. Eu pensei que tivesse abandonado minha carreira esportiva depois do último fiasco futebolístico, mas encontrei uma sobrevida. Mesmo porque, posso caminhar até os oitenta, noventa, cem anos, coisa que seria improvável, para não dizer impossível no caso do futebol. E tem mais. Caminhar eu caminho por necessidade. Caminhar por prazer e por esporte seria apenas uma releitura mais bem vista. Pois sendo assim, caminhemos, então. Evandro Soares Por Evandro - 11:17 AM Comments: Quarta-feira, Setembro 01, 2004 Com meus passos largos, largo o que passa para trás. Quero o horizonte e algo mais. As ruas são iguais, banais. Só o caminho e nada mais. As pedras, são apenas pedras! Não mais barreiras. Erros não mais serão tolerados, mas premiados. A fé remove a montanha, mas a façanha é saber para onde? Minhas pernas doem, mas a dor me faz forte. Me faz vivo! E vivo com esta dor, com este calor que me queima por dentro... E como a phenix, ressurjo das cinzas, renasço outra vez. Para me ver moribundo, cercado de abutres. O prato principal. O medo de crescer me faz menor. Pior que não crescer. Adoecer de um mal crônico, único e falso. Descalço não chegarei a lugar nenhum. Lugar comum na vida de gente normal. Final feliz na grande tela não revela o real desenrolar da trama. Evandro Soares Por Evandro - 9:38 AM Comments: Sexta-feira, Agosto 20, 2004 Se tem algo que me incomoda, são os intelectuais. Deus me livre um destino desses. Andar para lá e para cá equilibrando os óculos na ponta do nariz e vomitando Dostoievsk. Nona Sinfonia de Beetoven no celular e camiseta de Einstein com a língua de fora comprada no brechó, para apoiar a classe trabalhadora e boicotar a industria esmagadora que nos empurra goela abaixo tudo o que temos que usar, comer e ser. Encher a boca para dizer que leu A Divina Comédia e que não achou graça nenhuma. Perguntar para a balconista se aquele grandioso sucesso de bilheteria do Irã já chegou as prateleiras, porque está louco para ver, afinal, ¿adoro filme de arte¿. Batem no peito com toda a força para dizer que não ligam para o que os outros pensam. E pensam que todo mundo acredita. Mas na verdade, tanto faz porque, ninguém liga para o que eles pensam. Eu, por exemplo, quero ver meu time ganhar e xingar o juiz, porque está na cara que não foi pênalti. Para não falar do impedimento que ele deu. Um absurdo. Eu quero mais é que a Bárbara se ferre junto com o Tony. E o Paco também, aquele intelectual inrustido que não sabe nem fingir que é burro. Não quero nem saber se a gente vamos ou se nóis vai agora ou mais tarde. Se esse assunto vareia e se a ordem dos tratores altera ou não o viaduto. E se a soma dos quadrados dos catetos é igual ao quadrado da hipotenusa, pobrema dela. Meu cachorro outro dia me disse: ¿Você até que é legal, mas é muito tapado.¿ Eis que respondi: ¿F***-se¿ (com o perdão da má palavra). Só porque ele é um Yorkshire cheio de nove horas, um cachorro de madame intelectual, mimado, adorado e idolatrado, salve, salve, não quer dizer que ele pode sair por aí falando o que pensar para quem quiser. Fiquei indignado. E isso que ele é um cachorro. Imaginem se fosse um papagaio. E por falar em reino animal, começou a temporada de caça ao eleitor. Tem mais candidato a vereador do que gente. De todos os tipos e tamanhos. E é claro, tem intelectual, também. Que aparece na TV, tentando acompanhar o texto que vai passando rapidinho. Ainda bem que sou tapado como bem disse meu cachorro e não entendo nada de política. Já que estou falando de política, mais uma vez peço desculpas mas, será que algum intelectual pode me responder um pergunta? Se o combustível sobe dez porcento e o transporte coletivo sobe quinze porcento, como é que a inflação calculada para o transporte é de dois porcento? Acho que eles pegam a população que anda a pé, como eu, e utilizam na base de cálculo, e como sabemos, andar a pé, por enquanto não paga nada. Desta maneira, a média cai, porque tem muita gente que não tem grana para andar de ônibus. E intelectual adora essas coisas. Adora pobre. E vive fazendo filme retratando a miséria humana pra tentar ganhar Oscar. ¿Porque esse ano a gente ganha!¿ Já tentamos com Central do Brasil, Cidade de Deus, e Carandirú, que acho que não foi para o Oscar mas ganhou alguns prêmios. Porque intelectual adora cinema-verdade, mesmo não sendo a sua verdade. E mesmo não acreditando naquilo que está vendo. E mesmo não acreditando naquilo que insiste em defender como verdade. Porque como diria meu tio Albert: ¿Tudo é relativo!¿ E a verdade, meus amigos, também o é. Por Evandro - 11:16 AM Comments: Quarta-feira, Agosto 11, 2004 Casal Moderno A cena: Um casal deitado em sua cama, cada um com um notebook no colo. De repente, ouve-se um toc, toc, toc. Não é a porta mas, o ICQ (alguém ainda usa ICQ?) do computador dele avisando que alguém quer lhe falar. O diálogo: Tigresa_Sonhadora: Oi. Preciso tc com vc. Arcanjo_Sedutor_42: Tem que ser agora? Estou ocupado >: ( Tigresa_Sonhadora: É importante. É sobre nossa filha. Arcanjo_Sedutor_42: <: ! O que tem a Incompreendida_Alucinada?Saiu de casa outra vez? Tigresa_Sonhadora: Ainda não mas, parece que está de namorado novo. Arcanjo_Sedutor_42: Namorado? E quem é o coitado? Tigresa_Sonhadora: Parece que é um tal de Deflorador_Selvagem.com. Arcanjo_Sedutor_42: Parece boa pessoa. Descubra seu ID para que possamos conversar com o rapaz e saber quais são suas intenções. Era assim que os nossos pais faziam, não era? Tigresa_Sonhadora: Acho que sim mas, tem mais uma coisa. Arcanjo_Sedutor_42: O que foi dessa vez? Essa conversa pesada está deixando a minha conexão lenta. Tigresa_Sonhadora: Tenho a impressão de que nossa filha está grávida desse cara. Arcanjo_Sedutor_42: Já não era sem tempo. Tigresa_Sonhadora: Mas nossa filha tem apenas 12 anos!!! Arcanjo_Sedutor_42: E daí? A maioria das amigas dela já é mãe, e algumas são ainda mais novas que ela. Eu já estava preocupado, pensando em levá-la ao médico. Tigresa_Sonhadora: Isso lá é verdade mas, você acha isso certo? Arcanjo_Sedutor_42: De acordo com tudo que tenho visto ultimamente, acho que errado somos nós que namoramos, noivamos, casamos e só então tivemos filhos. As coisas hoje acontecem com muitos GHz (gigahertz) a mais de velocidade. Nem se compara. Tigresa_Sonhadora: Mas eu não sei se nossa filhinha já tem uma banda larga o suficiente para a conexão com o cable modem do rapaz. Arcanjo_Sedutor_42: Agora não adianta tentar deletar a situação. Se já instalou, só nos resta esperar processar por nove meses e torcer para que gere um hardwarezinho com saúde e muito espaço no HD. Tigresa_sonhadora: Que bom que você pensa assim. Estava preocupada. (Neste momento ela virasse e dá um abraço e um beijo no marido deitado ao lado.) Arcanjo_Sedutor_42: Se era só isso, fui. (Corta a conexão, limpa o beijo e pensa: ¿Que mulher estranha¿) Arcanjo_Sedutor_42: Off-line. Por Evandro - 2:26 PM Comments: Segunda-feira, Julho 19, 2004 Fim de Carreira Dessa vez é sério. Pendurei minhas chuteiras. Ou melhor, meu tênis de futebol de salão. Para quem não acredita, pode comprovar, olhando na parede da sala de minha casa, sob os seguintes dizeres: ¿Aqui jaz minha carreira esportiva!¿ Claro que quando eu me refiro a ¿carreira esportiva¿, trata-se apenas de uma licença poética, já que nunca pratiquei esportes por um período prolongado o suficiente para poder chamar de carreira. No máximo, espasmos. ¿Esportiva¿ também é um pouco demais. A menos que assistir ao jogo de dentro da quadra seja considerado como praticar esporte. E como acredito que quem não ajuda não deve atrapalhar, estou saindo melancolicamente de cena. Mas eu ainda quero encontrar o engraçadinho que diz que praticar esportes faz bem para a saúde. Só porque ele quer. Esse cara nunca esteve na situação em que me encontro agora. Totalmente entregue as dores da exaustão. Tudo dói. Meus dedos doem para digitar. Meu cérebro dói para pensar em que escrever. Meu peito dói, também, mas só quando respiro. E minhas pernas, então? Não bastasse o terrível esforço de suportar meu peso correndo de um lado para o outro atrás da bola, ainda fui vítima do impacto fulminante de uma bola incrivelmente apressada. Como minha pele possui uma coloração, por assim dizer, bronzeado de escritório, qualquer coisa já deixa marcas. E posso garantir que essa bolada não foi apenas ¿qualquer coisa¿. Doeu. E doeu muito. Quisera eu ser o Paulo Coelho para sentar na margem do rio Piedra e chorar. Porque eu só não chorei de vergonha. Agora eu consigo ver o mapa da lua na minha perna. Com o Mar da Tranqüilidade e tudo. A diferença é que está escrito Topper bem no meio de uma das crateras. Outra prova de que esporte faz muito mal para a saúde é a média de idade de aposentadoria dos atletas. Com quantos anos se aposenta um jogador de futebol? Trinta e cinco? Trinta e seis? E um jogador de basquete? Vôlei? E agora, com quantos anos se aposenta um advogado? Um historiador? Um funcionário público? Profissões totalmente burocráticas, onde os profissionais passam a maior parte do tempo atrás de uma mesa, sem fazer absolutamente nada. Em compensação tem uma vida profissional muito mais longa. E aposto que não precisam passar pelo sofrimento que me aflige no momento. Essa dor terrível no corpo. Foi-se o tempo em que eu jogava futebol ao meio-dia de Domingo, ou às seis da manhã do Sábado. Sexta-feira, dez horas da noite. De agora em diante, esporte para mim, só no video-game. E olhe lá, ainda. Essa é uma página virada em minha vida. Que venha a barriga. Que venham os problemas de junta pois, quando acontecer, pode juntar tudo e jogar fora. Haha. A piada foi terrível mas, a dor ainda é pior. Alguém aí tem uma pomada? Por Evandro - 6:01 AM Comments: Segunda-feira, Julho 12, 2004 Ando preocupado. Preocupado com o que está acontecendo com o mundo. Com o nosso mundo. Esse mundinho nosso de cada dia. Já estava preocupado há algum tempo, mas na última quinta-feira os meus medos tornaram-se mais concretos bem diante de meus olhos. Havia prometido para minha esposa Katia que iríamos ao cinema assistir a Paixão de Cristo na quarta-feira, pois aqui em Sorocaba existe uma promoção onde pagasse apenas meia entrada nas quartas e quintas. Como ando vendendo o almoço para pagar a janta, tenho que aproveitar essas boquinhas. Cheguei cansado do trabalho e, é lógico que esqueci do combinado. Quinta feira de manhã, prontifiquei-me a corrigir minha falta, marcando para aquela noite o cinema, um tanto incrédulo, é verdade, com o fato de realmente conseguir assistir o filme, já que toda vez que tentamos assistir algum filme no cinema, algo estanho acontece. Um dilúvio, um parente distante que vem fazer uma visita, alguém morre, coisas assim. Ao anoitecer, apressei a Katia para que fossemos logo, reduzindo assim as chances de algo nos atrasasse. Saímos para assistir a sessão das 21:00h, chegando ao shopping com mais de uma hora de antecedência. Qual não foi minha surpresa ao chegar no guichê e descobrir que já não haviam mais ingressos para aquela sessão? E nem mesmo para a sessão das 21:30h. Havia ingresso apenas para a sessão das 22:00h, mas deveria ser comprado em outro guichê. Fui buscar a Katia na fila, pois como o mundo é dos espertos, ela já estava na fila de entrada esperando por mim com os ingressos. Informei-lhe que apenas eu estava ali. Os ingressos não viriam tão cedo. Já aceitando a situação de Ter perdido mais uma vez a chance de assistir um filme, não iria comprar o ingresso para a última sessão, não fosse pelos apelos emocionados da Katia. Compramos então os ingressos e, como ainda não havia fila, demos uma enorme volta pelo nosso minúsculo shopping, retornado sempre para não ser surpreendido com o crescimento repentino da fila, o que nos condenaria a um lugar pior para assistir o filme. Quando começaram a aparecer alguns gatos pingados, entramos na fila e ali ficamos, mesmo faltando ainda mais de uma hora para o início do filme. Na nossa frente havia três grupinho de pessoas. Duas garotas que não sabiam que o filme terminaria por volta de meia noite e não poderiam ficar até tão tarde, portanto foram embora naquele momento. Um rapaz com sua namorada que comprou o ingresso para a sessão das 21:30h e estava na fila errada. E pelo adiantado da hora, já havia perdido o início do filme. E por último, um grupo de garotos com uma menina, com seus bonés, bermudões, olhos vermelhos e fala mole. Se não estavam drogados, no mínimo bêbados eles estavam. Falando bobagens e fazendo bagunça. Não importunaram ninguém diretamente mas, eu me pergunto que tipo de futuro tem pessoas como estas. Já sentado na poltrona, estava imaginando que fossem causar problemas e atrapalhariam o filme, quando percebo uma confusão no corredor central do cinema. Dois caras relativamente bem vestidos trocando sopapos com outro, também razoavelmente bem arrumado. Motivo. O cara sozinho reclamando que os outros haviam furado a fila. Quando estávamos entrando, eu contei 283 pessoas passando na minha frente, e olha que estes números são extra-oficiais, já que pisquei e devo Ter perdido uns 50, mais ou menos. E não pulei no pescoço de ninguém. Apenas tive vontade, confesso. Tumulto generalizado, seguranças entrando correndo, juras de morte, promessas de amor eterno e beijos na boca, tudo isso regado a vinho tinto, rosas vermelhas e é claro, pipoca, afinal, estávamos no cinema. Confusão contida e ânimos acalmados, uma ligeira discussão com o pessoal dos olhos vermelhos que tanto me preocupava e tudo bem. A sessão começou o o único inconveniente foi um celular que não parava de tocar no nosso lado. Numa situação normal, talvez eu até tivesse me irritado mas, depois de tanta confusão e apreensão, um grilo chato do lado é refresco. E também estava concentrado no filme. E vocês querem saber sobre o filme. Não acho que seja elegante comentar, pois muita gente ainda não assistiu e está louco pra ver. Só posso adianta uma coisa. O personagem principal morre no final.... Mas fiquem tranqüilos pois, como todos sabem, Ele ressuscitou. GRAÇAS A DEUS!!!! Mas continuo preocupado com os olhos vermelhos. Aqueles com quem tive a experiência momentânea de dividir o mesmo espaço por algumas poucas horas são o exemplo de uma verdadeira onda que vem invadindo nossa sociedade. Uma verdadeira orda de Orc¿s que invadiram nossa Terra-Média, e não temos armas para lutar contra eles, pois são nossos próprios filhos. Me preocupam os próximos dez, quinze, vinte anos, em que estas pessoas estarão ocupando seu lugar na sociedade, trabalhando, pensando e tomando decisões. Tomarão as decisões corretas? Ou precisarão sempre que alguém faça isso por elas? Gostaria de ter escrito este texto com mais bom humor, mas é difícil rir de situações tão sérias. Estou muito preocupado. Evandro Soares Por Evandro - 2:13 PM Comments: Terça-feira, Julho 06, 2004 Jornal Nacional Está decidido. Não assistirei mais ao Jornal Nacional. Prefiro morrer na escuridão da ignorância. Não quero mais saber o que acontece no mundo. No meu país. Na minha cidade. Não quero nem saber o que acontece com meu vizinho. Aliás, eu nem sei quem é meu vizinho, porque tenho que saber que aconteceu com o Saddan Houssain? Ele não vai me emprestar uma xícara de açúcar, se eu precisar. Não quero mais saber se um ônibus caiu num rio ou se a febre aftosa impediu as exportações de carne para a China. Não pretendo ir para a China. Tenho muito à fazer aqui em Sorocaba. E mesmo porque, se algum dia precisar ir para lá, nem sei qual é o ônibus que para mais perto. E também ouvi dizer que lá já tem muita gente e que seus hábitos alimentares não são muito atrativos para um simples rapaz latino americano sem dinheiro no banco, como eu. Também não quero mais saber se a conta de luz, água, telefone, aluguel e oxigênio vão subir de novo. Mesmo porque o nosso presidente disse que a inflação está abaixo de 2%. Como essas coisas podem subir 7% todo mês. Pára de mentir Seu Willian. ¿Eu acredito no nosso presidente.¿ Foi o que eu disse ao Papai Noel, outro dia. E mantenho minha posição. A única coisa boa desses jornais, é que você fica sabendo a programação das tragédias do dia seguinte e pode programar seu vídeo cassete para gravar tudo. Por exemplo, você sabe o horário em que os terroristas vão executar mais um refém. E no horário informado está lá, ao vivo e a cores, um bando de encapuzados com a cabeça de um cara na mão. ¿Ai que horror. Não agüento ver isso de novo.¿ Claro. Todos nós já vimos essas imagens dezenas de vezes. ¿Mas amanhã vai ser diferente. O cara que vão matar tem barba.¿ E no outro dia estaremos todos nós, novamente reunidos em frente ao nosso aparelho doméstico de lobotomia para mais uma sessão de miséria humana. Para ser sincero, um frio corta minha espinha quanto tento imaginar qual será a próxima moda que vão lançar para manter o ibope. Sim, porque não passa de mais uma moda. Como a lambada. Quem não se lembra da lambada? Beto Barbosa enlouquecia multidões. À pouco tempo atrás, tivemos que passar muitos domingos familiares vendo as crianças descendo na boca da garrafa e a fabulosa prova da banheira. E quando esses programas terminavam, puxávamos a descarga para ver se o mal cheiro passava. E depois ficam todos horrorizados com a notícia de mais um padre pedófilo. E que nós esperávamos depois dessa overdose de imagens e sons extremamente erotizados? O cara debaixo da batina deve ficar louco porque, em plena novela das sete as coisas acontecem sem o menor pudor. Um amigo meu tem TV a cabo e ele me disse que lá passam os jornais das notícias boas. Mas como não tenho dinheiro pra comprar as notícias boas, tenho que ver as crises do petróleo, o imposto que vai ser lançado, a velhinha que foi atropela... ¿E o combustível vai ficar mais caro!¿ Do jeito que a coisa anda, está mais barato reconstruir as cidades umas mais perto das outras do que viajar quilômetros. Porque eu queria saber de quem foi a idéia de construí-las tão longe e com tanto espaço entre elas. Haja combustível. E como se já não bastasse, o frentista coloca gasolina no meu carro à álcool. E eu tenho que pagar pelo erro, ainda. Mas poderia ter sido pior. Ele nem sacou sua arma para me fazer assumir o erro. Acho que era meu dia de sorte. Quanto a você, Willian Bonner, não quero mais saber dessa sua ironia ao entrar em minha casa e dizer ¿Boa noite!¿ Boa noite por que? O que você tem para me dizer que vai fazer com que minha noite seja boa? Quer saber de uma coisa, Bill? Tô de mal com você. Por Evandro - 5:19 PM Comments: Segunda-feira, Junho 28, 2004 Fwd: Só Repassando... ¿-Preciso mandar uns e-mails. Ou melhor, repassá-los. É mais fácil, rápido e frio.¿ Deixo aqui minha queixa à quem tiver paciência em me ouvir. Porque ninguém mais manda e-mails? Ninguém mais se dá ao trabalho de sentar em frente ao computador e digitar algumas linhas, realmente pensando no destinatário. É mais fácil repassar o que se recebe. Piadinhas feitas ou mensagens bonitas de alto-ajuda. Isso quando não são aquelas correntes milagrosas que prometem modificar a vida da pessoa simplesmente porque enviou aquele e-mail para dez pessoas. Coitados dos pobres e desafortunados que não tem acesso a Internet. Não mais herdarão o reinodoceu.com (tudo junto e sem acento). Até acho engraçadas as piadas que recebo. E confesso que normalmente acabo repassando, da mesma maneira que recebi. Mas algumas pessoas já disseram que, quando encontram dois e-mails com o mesmo nome, abrem o meu porque gostam de ler os comentários que faço sobre os textos ou imagens. Mesmo sendo algo que fazia com pouca freqüência, estou modificando meus hábitos e gastando um pouco mais de tempo antes de simplesmente repassar. Sei que essas pessoa não fazem isso porque sou um grande escritor e sempre escrevo textos maravilhosos. Mas por sentirem-se valorizadas, afinal, o fiz ali foi para elas. Como este texto que escrevo agora. Esta campanha que lanço em prol da mensagem anexada ao e-mail repassado. Porque quando você abre uma mensagem que diz : ¿Um amigo pensou em você e envio-lhe esta linda mensagem...¿ ele simplesmente habilitou o campo ¿Inserir todos os contatos da lista de endereços¿, e por um acaso, seu nome estava nela. Este texto não é uma crítica a ninguém em especial, e sim, à todos nós. Evandro Por Evandro - 9:29 AM Comments: Segunda-feira, Junho 21, 2004 Nossa Inocência Há alguns dias atrás, recebi um texto por e-mail e creio que a maioria de vocês também recebeu. Era um texto que narrava alguns acontecimentos da infância de pessoas que nasceram antes dos anos oitenta e salientava que, todas aquelas coisas eram tão normais na época e hoje tornou-se tudo tão arriscado. Esse texto me fez pensar e concordar com tudo aquilo que estava escrito. Mas por que será que as coisas mudaram tanto em tão pouco tempo? Acredito que foi porque perdemos a inocência. E quando digo nós, refiro-me às nossas crianças. Lembro-me que passei a maior parte da minha infância jogando futebol com meus amigos na escola que existia em frente a minha casa. Éramos amigos do zelador, que liberava-nos a quadra todos os finais de semana. E durante a semana também nos períodos de férias. Jogávamos bola o dia inteiro, até que anoitecesse e conseguíssemos mais enxergar a bola. Então íamos para casa tomar banho e jantar. E logo em seguida estávamos na rua novamente, inventando mais alguma brincadeira. Isso mesmo. Nós brincávamos. Com nossos doze ou treze anos, e até mais, nós ainda brincávamos. Porque éramos inocentes. Nunca nos reunimos para planejar crimes ou ¿pegar minas¿. E não era por falta de oportunidade pois haviam meninas entre nós. Mas eram nossas colegas. E se alguém insinuasse alguma coisa, o rosto ficava logo vermelho e negávamos até a morte qualquer possibilidade. Éramos crianças. Éramos inocentes. Graças ao bom Deus, tenho orgulho e muita alegria em dizer que não perdi nenhum de meus amigos para o crime. Não tenho amigos presos ou mortos em confronto com a polícia ou uma gangue rival. Não tínhamos tempo para isso. Estávamos ocupados demais sendo crianças. Sendo inocentes. Talvez, a última geração. Comíamos porcarias, bebíamos água da torneira, tomávamos sol o dia todo na cabeça e ninguém nunca caiu de cama acometido de qualquer doença que fosse. Claro que alguns casos de fratura ou luxação aconteceram, bem como uma apendicite e algumas unhas encravadas mas, tudo parte do contexto. Nunca ouvi meu pai reclamar de stress o minha mãe me dizer para não comer porque tinha que tomar cuidado com o colesterol, com a pressão. Sinceramente, não me lembro de ter acordado e o café não estar pronto porque minha mãe acordou indisposta. Ou por qualquer outro motivo. Dona Eleni não falhou um dia sequer. Bem com o seu Jeremias, que não faltava a nenhum jogo de futebol do seu filho. Porque ¿ele tem condições de ser profissional. Não vai porque não quer.¿ E seu filho, este que vos fala, se matando pra terminar mais um jogo, antes de ser substituído. E se puder, ele ainda comparece nas peladas, cada vez mais raras, é verdade. Porque filho é assim. Não cresce. Será sempre uma criança. Sempre inocente. Talvez eu ainda seja inocente (Deus queira que sim) por Ter saudades destes dias que se foram a tão pouco tempo. Talvez esta inocência me acompanhe por toda a vida. Gosto de confiar no Pablo quando ele diz que oitos horas passa na minha casa. Ficar esperando até às dez e sair dando risada porque, pela milésima vez, eu acreditei que ele chegaria no horário. Adoro ficar nervoso porque, desta vez o Carlão marcou um jogo e, segundo ele, ¿o time dos home é bão!¿ E mais uma vez nós goleamos, tropeçando na língua e tudo mais. Ainda me delicio com Isaac e seu estilo ¿intelectual de alcova¿, filosofando sobre as verdades de nosso pequeno universo, tão rico em acontecimentos inúteis. Ainda me divirto com as crises de revolta do Penedão, inventando novos nomes feios só porque uma moto passou e fez muito barulho. Eu adoro ainda ser tão inocente e acreditar que essa fase nunca vai passar. Adoro ser inocente e acreditar que a verdadeira amizade não vai morrer. Porque no fundo, ainda temos todos, essa benção que costumo chamar de inocência. Por Evandro - 9:43 PM Comments: teste Por Evandro - 9:39 PM Comments: |